sábado, 20 de fevereiro de 2010


Por Giorgio Agamben 
Fonte: Frankfurter Allgemeine Zeitung de 20/11/2001, via http://libcom.org/library
Tradução: Agência Imediata
“Podemos dizer que a política trabalha secretamente no sentido da produção de emergências.” Breve artigo escrito como resposta aos ataques do 11 de setembro, pelo filósofo Giorgio Agamben, publicado pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung em 20 de setembro de 2001.
A segurança como princípio condutor da política de estado remonta ao nascimento do estado moderno. Ela é já mencionada por Hobbes como o oposto do medo, o qual compele os seres humanos a se reunirem ao interior de uma sociedade. Mas só no século dezoito a idéia de segurança adquire um sentido próprio. Numa conferência de 1978 no Collège de France (ainda a ser publicada), Michel Foucault mostrou como a prática política e econômica dos fisiocratas opõe segurança à disciplina e à lei, como instrumentos de governo.
Turgot e Quesnay, assim como os funcionários fisiocratas do governo, não estavam preocupados principalmente com a prevenção da fome ou a regulamentação da produção, mas queriam permitir o seu desenvolvimento para, em seguida, regulamentarem e “assegurarem” suas conseqüências. Enquanto o poder disciplinar isola territórios, impedindo-lhes a passagem, as medidas de segurança levam a uma abertura e à globalização; enquanto a lei quer prevenir e regular, a segurança intervém através de processos contínuos, com o fim de dirigi-los. Em poucas palavras, a disciplina quer produzir ordem, a segurança quer regular a desordem. Como as medidas de segurança podem funcionar somente dentro de um contexto de liberdade de tráfego, comércio e iniciativa individual, Foucault mostra que o desenvolvimento da segurança acompanha as idéias do liberalismo.
Hoje nos deparamos com desenvolvimentos extremos e muito perigosos quanto à idéia de segurança. Durante uma época de gradual neutralização da política e abandono progressivo das tradicionais funções do estado, a segurança se torna o princípio básico da atividade de estado. O que antes era apenas uma entre várias medidas definitivas de administração pública, até a primeira metade do século vinte, agora se torna o único critério de legitimização política. A idéia de segurança traz consigo um risco essencial. Um estado que faz da segurança sua única tarefa e fonte de legitimidade é um organismo frágil; ele é sempre passível de ser provocado pelo terrorismo, até se tornar ele mesmo terrorista.
Não devemos esquecer que a primeira importante organização de terror depois da Guerra, a Organisation de l’Armée Secrète (OAS), foi estabelecida por um general francês que se julgava patriota, convencido de que o terrorismo era a única resposta possível ao fenômeno da guerrilha na Argélia e na Indochina. Quando a política, assim como entendida pelos teóricos da “ciência política” do século dezoito, se reduz à polícia, a diferença entre estado e terrorismo tende a desaparecer. No fim das contas, a segurança e o terrorismo acabam formando um mesmo sistema letal, no qual um justifica e legitimiza as ações do outro.
O risco não é meramente o desenvolvimento de uma cumplicidade clandestina de oponentes, mas de que a busca por segurança leva a um mundo de guerra civil que torna impossível qualquer tipo de coexistência civil. Na nova situação criada pelo fim da forma clássica de guerra entre estados soberanos, fica evidente que a segurança encontra a sua finalidade na globalização: implicando a idéia de uma nova ordem planetária global, a qual é, na verdade, a pior de todas as desordens.
Mas há ainda outro perigo. Como elas requerem uma referência constante a um estado de exceção, as medidas de segurança trabalham no sentido de uma crescente despolitização da sociedade. A longo prazo, as medidas de segurança são irreconciliáveis com a democracia.
Nada é mais importante que a revisão do conceito de segurança como princípio básico da política de estado. Os politicos europeus e americanos finalmente devem levar em consideração as conseqüências catastróficas do uso geral e não crítico dessa idéia. Não é que as democracies deveriam parar de se defenderem mas, talvez, que tenha chegado a hora de se trabalhar no sentido de se prevenir a desordem e a catástrofe, e não meramente de se procurar controlá-las. Ao contrário, podemos dizer que a política trabalha secretamente no sentido da produção de emergências. É função da política democrática a de prevenir o desenvolvimento de condições que levam ao ódio, ao terror e à destruição, e não apenas se limitar a tentativas de controlar esse fenômenos depois que tenham ocorrido.